terça-feira, 3 de junho de 2008

Minhas verdades

Eu não acho que o que eu diga seja a verdade
Tão pouco julgo que o que eu acho seja parte dela
Mas se não me achar possuidora da minha verdade
Como posso viver nessa vida cheia de mentiras?
Minha verdade existe, e é só o que eu sei
Não sei se é o certo a saber, mas é o de que preciso
Possuo minhas verdades na medida do que posso
E as procuro sempre que necessito
Não quero revela-las a qualquer um
E muito menos mostra-las a qualquer vento
São minhas verdades, só minhas
Só eu penso desta forma,
Só minhas verdades são moldadas com este apreço
Não seria justo com elas serem ditas a qualquer ouvido
Não seria justo comigo saber que elas não gostam disso
E pronto. As verdades não existem
Pelo menos não de acordo com as minhas verdades
E essas mentiras que circulam por todos os cantos
Ate que me ajudam a moldar as verdades que tanto necessito
E a cada dia que passa mais sinto-me capaz
De fazer com que todas as minhas verdades não sejam alienadas
Que elas possam alçar vôos cada vez mais altos e belos
Porque feliz daquele que tem seu cérebro sadio
Para fazer do seu eu, não somente mais um
Mas fazer da sua memória, a melhor de todas as verdades.

R.A

Poemas inconjuntos ( Alberto Caieiro)

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
(13.6.1930)



Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã.
As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço,
Da trovoada de depois de amanhã?
Tenho a certeza, mas a certeza é mentira.
Ter certeza é não estar vendo.
Depois de amanhã não há.
O que há é isto:
Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo embaixo como se viesse negro depois.
Isto é o que hoje é,



E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista,
Mas se eu não estiver no mundo.
O mundo será diferente —
Haverá eu a menos —
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada.
(10.7.1930)